, nada

O mar onde tenho os olhos 

na incerteza de partir.

O mar onde vou navegar para ir.

O vento da mudança é calmo 

sem que o mar onde tenho os olhos

seja azul.

O que deixo que seja meu?

Olho o mar, nada.

Nada é meu a não ser

o mar onde tenho os olhos.
Toma lá um poema.

JG

13/6/2002

Parece que foi ontem.

Onde estás


A vida é uma espera. Esperamos que tudo corra bem e nada corra mal. Esperamos. Sempre. Os dias que se medem à espera de tudo e para nada. Gosto de ti e já espero nada. Estás aqui. E tu que me perguntas onde estás. Estou no teu coração. É aí que me encontras sempre à tua espera. Não esperes tu por mim que já lá estou. 

Contigo arrisco e de nada me escondo. Vivo porque quem se mostra sem medo, vive. Tiras-me o medo. Dás-me vida. Agradeço-te com palavras. Trago-te palavras que ficam. As flores não ficam tanto quanto queria que ficassem senão também te as trazia. Trago-te pedrinhas e grãos de areia. Gosto de te mostrar feliz coisinhas que ficam, que me lembrem de ti. Um momento por palavra. Um jardim de palavras. Uma pestana sempre no dedo de cima. Desejos que para nós ficam também e tão bem.

JG

Cartas de amor

Está na altura de escrever cartas de amor ao meu amor de uma vida antes que a vela se acabe e seja só arrependimento. 

A Catarina quer cartas de amor e quero ser eu a escrever-lhas. A primeira vai ser a resposta à pergunta quando é que te sentiste a apaixonar por mim. 

Tenho tantos momentos e nunca lhos disse. Se juntasse todos esses pontos felizes com uma linha, faziam-se estendais de luz para iluminar o resto dos meus dias. É esse estendal que quero montar agora. Que burrice não me ter lembrado disto antes. Isso acabou. 

A minha crise dos 40 vai ser centrar-me em ti e esquecer-me de mim um pouco mais e mais até só haveres tu, meu amor.

JG.

A Merendeira


O caldo verde era sempre na Merendeira na 24 em Lisboa.
Sempre de noite, sempre de madrugada já alta. Era assim depois das saídas, depois das aulas de faculdade. Havia o fumo da panela, umas meninas de olhares rápidos que já nos conheciam ao entrar a servir o pão com chouriço enrolado em papel reciclado, o caldo verde sempre bem temperado com o melhor do caldo, sempre quente e com o brinde da rodela de chouriço forte. Aquilo enchia pá. Enchia do vazio da noite mal dormida. Enchia a noite de rodopio pelas ruas da cidade. Enchia a alma. Era um objectivo. Ir à merendeira e depois para a casa/quarto alugado. Nem sei se ainda existe mas merece um pequeno tributo pelo papel reciclado que teve nas minhas noites acesas. Mais pelo meio da semana, que ao fim de semana era para ir à santa terra ver os velhos. Abençoados.